10 de março de 2009

As Faces das Deusas

A característica mais saliente das heroínas femininas épicas apresentarem múltiplas aparências, múltiplos rostos, múltiplos semblantes, geralmente três, tendo em consideração o número simbólico sagrado dos Celtas, o qual tanto se apresenta com a forma de tríade como de triskel, a tripla espiral que, girando à volta de um ponto central, simboliza por excelência o universo em expansão.

As heroínas aparecem, por isto, com inúmeras aparências e nomes, em diferentes épocas e em vidas sucessivas. Referindo-se em primeiro lugar à tríplice Deusa Brighid, que se diz filha de Dagda, e que vem a ser, nem mais nem menos que, a Minerva gaulesa de quem fala César. Deusa das técnicas, das ciências e das artes, que os cristãos recuperaram com o vocábulo de Santa Brígida, atribuindo-lhe a fundação do célebre mosteiro de Kildare, na Irlanda, antigo lugar de extrema importância do culto druídico.

Ora, esta Brighid é também, com o nome de Boann, a mãe de Oengus, o Mac Oc, que concebeu e deu à luz durante o espaço temporal da noite de Samhain, ou seja, simbolicamente, durante a abolição do tempo, a eternidade. Brighid encena a vida eterna e, o seu nome, derivado de Bo Vinda, "vaca branca", mostra bem até que ponto se encontra associada a um alimento inesgotável, o leite, elemento indispensável aos povos exclusivamente nômades e pastores, como era o caso dos Celtas. A simbologia do seu nome dará os seus frutos e Boann toma-se o rio Boyne (grafia moderna) que fecunda com as suas águas doces um vale verdejante ao redor do qual se situam os grandes outeiros feéricos, que são domínios dos Deuses. E se o nome Brighid (que significa poderosa, alta e luminosa) é extremamente significativo, Boann, representando a riqueza avaliada em cabeças de gado entre os Celtas, constitui a alma de uma sociedade onde predominam claramente as tendências ginecocráticas.

O terceiro rosto de Brighid-Boann, o de Morrígane (genitivo de Morrigu ou Morrighan), filha de Ernmas, uma das personagens mais marcantes das tribos da Deusa Dana. O que nela melhor se evidência em particular na narrativa da Batalha de Mag-Tured, é o fato de se tratar de uma divindade guerreira temível para os seus inimigos durante os conflitos, enquanto exortava os guerreiros a combaterem com encabeçamento. O furor guerreiro de que ela dá provas abundantemente desdobra-se num furor sexual desabrido que a transforma senão numa divindade do amor, ao menos numa espécie de Deusa do erotismo. A fúria guerreira e a sexual andam assim a par e nos prolongamentos da epopéia celta encontram-se numerosas mulheres guerreiras que têm poderes mágicos e são especialistas na arte militar, ao mesmo tempo em que são iniciadoras dos futuros heróis, como é o caso, por exemplo, de CuChulainn.

O nome de Morrigane (Morrigu ou Morrighan) que significa "Grande Rainha" evoca o da fada Morgana das lendas arthurianas e do ciclo do Graal, tratando-se, em qualquer um dos casos, da mesma essência, ao mesmo tempo guerreira, sexual e mágica. A Morrigane da epopéia irlandesa toma muitas vezes o aspecto duma gralha ou corvo, chamando-se então, de Bobdh.

Fonte: Jean Markale - A Grande Epopéia dos Celtas

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